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Guerra, Estratégia e Armas



Quinta-feira, 26.10.17

Dieter Dellinger: A Revolução de Outubro

 

Vladimir Ilitch Ulianov em quase 94 anos de velório.  Caso único em toda a História da Humanidade, o grande líder é um eterno morto vivo ou vivo morto que continua assim apesar de as suas ideias terem em parte já morrido, mas continua a ser a maior atração turística da cidade de Moscovo e símbolo da Revolução de Outubro (e Novembro).

 

No próximo dia 7 de Novembro fará  precisamente 100 anos que pelas 22 horas na então cidade de Petrogrado, a capital do Império Russo, o cruzador “Aurora” disparou uns tiros a dar o sinal para que a guarnição militar da cidade reforçada com marinheiros da base naval de Kronstadt e numerosos militantes do partido “Bolchevique” liderados por Liev Davidovitch Bronstein se lançarem ao assalto ao Palácio de Inverno e prenderam os ministros do governo provisório de Alexander Kerensky que na altura estava de visita a uma frente de batalha.

A revolução começou por ser de 25 de Outubro no antigo calendário Juliano  e assim ficou denominada, mas teve lugar a 7 de Novembro por o governo do líder bolchevique Vladimir Ilitch Ulianov ter aderido ao calendário Gregoriano do Papa Gregório XIII de 1582. cujos astrónomos recomendaram  a passagem do então 4 de Outubro de 1582 para o 15 de Outubro, a fim de acertar o ano e que é o das potências ocidentais e do Mundo em gerla com uma diferença de 11 dias. Portugal com a Itália, a Espanha e a Polónia foram as primeiras nações a utilizarem o calendário Gregoriano. qu

A noite estava fria e a cidade debaixo de um vento que gelava toda a gente. Os defensores do Palácio constituídos por uma pequena guarnição que muitos historiadores designaram de cadetes do exército, mas que eram na verdade militantes do Partido Constitucional Democrata, abreviadamente conhecidos por cadetes (constitucionais democratas), que com o Partido Revolucionário Socialista, o Partido Social Democrata Menchevique, grupos de anarquistas e militares tinham revoltado as forças militares que defendiam o Imperador Nicolau II, proclamando um governo provisório entre os liberais Constitucionais e os referidos partidos de esquerda já representados no parlamento Duma, a 27 de Fevereiro (depois 12 de Março) que produziu de imediato a abdicação do Imperador que foi detido cinco dias depois para não fugir para a Inglaterra.

A revolução de Outubro foi sobretudo a consequência da tomada do comando das forças de Petrogrado por Liev Davidovitch Bronstein, um intelectual e pensador revolucionário, presidente do Comité Militar do Partido Bolchevique, que assumiu o comando militar da Revolução e da guerra civil que se seguiu até ser expulso do PCUS em 1924 e assassinado no México em 1940 às ordens Iossif Vissarionovitch Djugashvil.

A tomada concretizou-se no dia seguinte com a autonomeação de Vladimir Ulianov para presidente do Conselho de Comissários do Povo. A ação militar em Petrogrado foi quase simultânea com a dos camaradas de Moscovo, pelo que de repetente as duas principais cidades de uma gigantesca Rússia rural ficaram na mão dos bolcheviques com o apoio de grande número de soldados e marinheiros e oposição de militares que iniciaram uma complicada guerra civil, mesmo depois de Ulianov ter firmado um cessar fogo e um tratado de Paz com a Alemanha do Kaiser em Brest-Litovsk.

A guerra tinha sido para os russos um tormento insuportável e só na última tentativa de alcançarem uma vitória com a ofensiva do general Brassilol, os russos perderam mais de um milhão de homens entre mortos, feridos e capturados.

Vladimir Ulitch Ulianov era um marxista revolucionário convicto para quem o chamado “Comunismo de Guerra” com a nacionalização do comércio, pequenas e grandes empresas em que muitas eram estatais como caminhos de ferro, estaleiros navais, fábricas de material de guerra e ferroviário, etc. seria apenas uma fase provisória.

Ao mesmo tempo permitiu que os camponeses ocupassem as terras da grande nobreza latifundiária, apesar de ter havido antes uma reforma agrária que distribuiu pelos camponeses metade das anteriores grandes propriedades, orientada por um primeiro ministro do Imperador, reacionário, mas conhecedor das realidades e julgava encontrar nos novos proprietários um apoio à autocracia.

Ulianov não pretendia uma ditadura perene do seu partido, mas provisória até que o próprio Estado fosse substituído por conselhos de camponeses, operários e militares e que esses governassem a Rússia e queria libertar as muitas nacionalidades do Império que sempre designou por “Prisão de Nações”. Contudo, ordenou a conquista da Ucrânia tornada numa República do tipo soviético (Rada em ucraniano) e dirigida por um partido irmão, mas não subordinado.

De qualquer modo, o fundamento da praxis de Vladimir Ulianov teve dois pontos cardiais, o fim imediato da Guerra e do Czarismo e a implantação do novo regime.

Mas, no essencial Vladimir Ulianov observou a I. Guerra Mundial e viu com espanto que os Estados em guerra foram capazes de fabricar quantidade fantásticas de materiais para matarem os seus povos como munições, canhões, espingardas, navios de guerra e aviões que tiveram um desenvolvimento extraordinário durante a guerra e que o capitalismo só por si não seria capaz de conseguir.

Para Vladimnir Ilitch Ulianov, se o Estado faz tão bem materiais para matar, deveria poder fazer melhor tudo o que o povo necessitasse, tanto em bens de consumo como em estradas, habitações, barragens, produção de energia elétrica, canais, etc.

Uma vez no poder, Ulianov viu que se enganou porque em 1917 os bens de consumo eram quase todos de fabrico artesanal e as coisas só funcionavam com uma troca crescente entre bens alimentares fornecidos às cidades e bens industriais ou de consumo aos camponeses. Nesse aspeto, com uma agricultura em crise por causa da guerra e pequenas oficinas e fabriquetas nacionalizadas e abandonadas pelos mestres patrões, a crise agravou-se. Os arquivos mostram que Ulianov chegou a Petrogrado com o apoio alemão e a Alemanha chegou a fornecer cereais para aplacar a fome em Petrogrado e Moscovo.

Ganha a guerra civil contra as forças “brancas” e fuzilada a família imperial, Vladimir Ulianov quis fazer marcha atrás e realizar aquilo que designou por NEP ou Nova Política Económica para deixar os artesãos e pequenos camponeses trabalharem e comercializarem os seus produtos, enquanto o Estado se dedicaria aos setores mais pesados e importantes da economia.

No fundo, Ulianov era para ser um Deng Xiau Ping da Rússia, mas em 1922 sofreu um derrame cerebral e perdeu as suas qualidades, acabando por morrer demasiado cedo e o poder foi para Iossif Djugashvili que era então o Comissário para as Nacionalidades e secretário do partido para as questões de pessoal. Detinha pois o poder de nomear e fazer com que nos Congressos do PCUS os delegados lhe fossem maioritariamente favoráveis.

Com esse poder, Djugashvili liquidou nas purgas do anos trinta os seus aliados e amigos como Kamenev e muitos outros, sendo, como tal, o único revolucionário de Outubro que morreu na cama depois de Vladimir Ilitch e continuou o “Comunismo de Guerra” de tal modo que nem com a sua morte acabou.

Só a auto dissolução do partido e declaração de independência da Rússia em relação às nacionalidades aprisionadas é que acabou com o caráter ditatorial do regime comunista. Não foi, por exemplo, o Kazaquestão, a Arménia, a Ucrânia, etc. que se declararam independentes, foi a Rússia que se libertou das Repúblicas, já formalmente independentes, mas antes sob o jugo do partido único comum a todos os territórios federados e partes da União.

 

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por DD às 16:56


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